Para analistas liberais, o chavismo implantou na Venezuela políticas populistas que se mantiveram com o governo de Nicolás Maduro (Foto: Divulgação)

Para analistas liberais, o chavismo implantou na Venezuela políticas populistas que se mantiveram com o governo de Nicolás Maduro (Foto: Divulgação)

“Não quero saber de inflação. Isso é coisa de economista. Eu sou político.” A frase é do ex-presidente argentino Juan Domingo Perón (1946-1955), mas se encaixaria no discurso de qualquer político populista, de esquerda ou de direita.

É muito comum observarmos políticos acusando-se mutuamente deste “crime”. A direita acusava o ex-presidente Lula (PT) de ser populista em razão da implementação de programas sociais como o Bolsa-Família. A esquerda acusa o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), de ser populista por abusar nas redes sociais de factoides, como ser fotografado varrendo ruas ao lado de garis. Mas o que é populismo?

Seu significado parece estar claro para muitos, mas não é tão evidente. O presidente Barack Obama iniciou um recente discurso sobre o populismo dizendo: “Não sei se alguém poderia procurar no dicionário a definição de populismo”. Sem que ninguém o ajudasse, terminou com uma definição negativa: “Alguém que cria rótulos ‘nós contra eles’ ou usa retórica sobre como vamos cuidar de nós em relação a eles não é a definição de populismo”.

Modo geral, a política populista caracteriza-se menos por um conteúdo determinado que por um “modo” de exercício do poder. Sua característica básica é o contato direto entre as massas urbanas e um líder carismático, supostamente sem a intermediação de partidos ou corporações. Para ser eleito e governar, o líder populista procura estabelecer um vínculo emocional com o “povo”. Isso implica um sistema de políticas ou métodos para o aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, além da classe média urbana, como forma de angariar votos e prestígio (legitimidade para si) por meio da simpatia daquelas. Esse pode ser considerado o mecanismo mais representativo desse modo de governar.

Juan Domingo Perón: o presidente argentino que encarnou o populismo de direita oriundo de ênfase no trabalhismo (Foto: Divulgação)

Juan Domingo Perón: o presidente argentino que encarnou o populismo de direita oriundo de ênfase no trabalhismo (Foto: Divulgação)

Uma corrente acadêmica define o populismo exatamente assim: “É uma ideologia rasa que considera que a sociedade se divide em dois grupos homogêneos e antagônicos, o ‘povo simples’ e a ‘elite corrupta”, diz Cas Mudde, professor da Universidade da Geórgia. Esse discurso pressupõe que “os dois grupos têm interesses irreconciliáveis, o que leva a enfatizar a soberania nacional ou popular”, diz Luis Ramiro, professor da Universidade de Leicester. O político populista é, então, o único que representa a voz de toda a população.

Por essa definição, o populismo é um instrumento eleitoral ou de poder. Seu uso bem-sucedido mais recente foi a campanha de Donald Trump: “A pergunta de amanhã é: quem vocês querem que governe a América, a classe política corrupta ou o povo?”, perguntava Trump na véspera da eleição. Este discurso encontra ressonância aqui no Brasil entre muitos presidenciáveis de olho em 2018.

Existem medidas populistas ou apenas de esquerda ou de direita?

Existem medidas populistas ou apenas de esquerda, de direita, demagógicas ou estúpidas? Os acadêmicos divergem. Hoje, por exemplo, a direita populista abandonou a defesa do livre mercado em favor do protecionismo. Nesse aspecto, sua posição a aproxima de setores da esquerda. O movimento pode ser populista, mas a proposta concreta também é?

Entre os acadêmicos há um que define o populismo como algo mais que uma mera retórica de campanha: “O populismo é iliberalismo democrático”, diz Takis Pappas, professor na Universidade da Macedônia, em Tessalônica (Grécia). O objetivo dos políticos populistas não seria tanto apresentar uma divisão social, mas sim desmontar a democracia liberal: “Os partidos populistas opõem-se a instituições democráticas como a imprensa livre, a divisão de poderes e especialmente a autonomia judicial”, diz Pappas.

Os exemplos que Pappas menciona são Chávez e Maduro, na Venezuela, e Fujimori, no Peru. Se um líder é o único representante do povo, qual a necessidade de uma oposição e contrapesos do poder? A ideia de que todos os adversários pertencem à elite corrupta os deslegitima: se o discurso populista é levado ao extremo, “projeta uma concepção majoritária da política em que os partidos no poder supostamente servem ao povo inclusive contra a lei”, diz Pappas.

O populismo na visão dos deputados estaduais de Mato Grosso do Sul

“É muito difícil esperarmos que nas próximas eleições tenhamos um voto ético, aquele em que o cidadão vai se preocupar com a pessoa que ele está escolhendo para representá-lo. Quando vemos que a pessoa que mais roubou este país, que deixou a economia em frangalhos está liderando a pesquisa de intenção de voto, percebemos que, por mais que o povo sofra, ele continua escolhendo o populista. É difícil. Lula encarna esse discurso populista e engana as pessoas. É um cara de pau, descarado”, opina Coronel David (PSC).

Marcio Fernandes (PMDB), por sua vez, considera que a população não se deixa mais levar pelo discurso populista. “A classe política está totalmente desacreditada. O político tem de ir para a campanha mostrando o que fez de concreto. Aquele que não fez nada, que não tem serviço para apresentar, terá muita dificuldade. O povo não vai acreditar mais em promessas. O Doria [prefeito de São Paulo João Doria, do PSDB] se destaca por não ter rejeição e apresentar ações efetivas. Esse pode ser um nome para surpreender”, disse.

O tucano Beto Pereira acha que a sociedade está mais atenta ao populismo. “Qualquer discurso que venha a ser apresentado como o salvador da pátria, sem mostrar de onde vai sair, é preocupante. Hoje, a maior preocupação que temos de ter é organizar aquilo que se gasta com o que se recebe. O discurso de um salvador da pátria é extremamente perigoso.”

Para o deputado estadual Herculano Borges (SD), o discurso populista é aquele que tem por objetivo agradar à maior parte da população, mesmo sabendo que a matéria pode trazer dano, ser irresponsável ou até impossível de ser implementada. “Muitos populistas preferem ganhar os eleitores na conversa, sem se importar com o resultado final do que eles mesmos propõem. Em todos os lugares, aqui mesmo em Campo Grande, há aqueles que vão por essa linha: se elegem e depois quem sofre é a população. Porque aquele discurso que consegue resolver todos os problemas do mundo não existe. O candidato fala o que o povo quer escutar e ele mesmo sabe que aquilo é impossível de se realizar.”

Ações assistencialistas são populismo ou impulsionam a inclusão social?

O petista Cabo Almi acha que os políticos devem se policiar para não adotarem o discurso fácil das promessas vazias. “Nós políticos, e eu me incluo entre eles, precisamos cuidar mais da prática do fazer que do falar. A sociedade está cada vez mais desacreditada da política. A propaganda eleitoral não pode ser apenas focada em promessas. Tem de mostrar e cumprir. O político precisa se apresentar como algo novo, algo credível. Todos os dias vemos denúncias e delações, enquanto os partidos dizem que não fazem parte desta realidade. A população está muito atenta, ligada em quem só promete. É preciso responsabilidade.”

Para o deputado João Grandão (PT), políticas sociais como o Bolsa-Família e o Prouni não podem ser consideradas ações populistas. “Não tenho dúvida de que a política populista tem data de validade. A população está muito consciente quando uma pessoa faz uma proposta totalmente inadequada. Por exemplo, um candidato dizer que vai dar aumento para servidor público. Isso é prerrogativa do Executivo.

Eduardo Rocha, do PMDB, classifica o discurso populista como aquele que sustenta resolver todos os problemas da segurança pública, da educação e saúde sem dizer como. “Cabe à população avaliar o histórico do candidato para se proteger do populista. Se eu falo que vou resolver o problema da educação, então qual o meu histórico neste setor? Se eu falo que vou discutir a guerra contra as drogas, principalmente a prevenção, mas eu já tenho várias audiências públicas, leis aprovadas, então isso é um discurso coerente e embasado. Agora, aquele discurso populista, de que vai melhorar a saúde, educação e segurança… Ok, mas como? Qual o projeto, qual o programa? Então, se o político não entra no detalhamento, isso é populismo”, opina.