Avenida é famosa pelo comercio variado, que hoje se encontra com pouco movimento (Foto: Valentim Manieri)

Avenida é famosa pelo comercio variado, que hoje se encontra com pouco movimento (Foto: Valentim Manieri)

A Avenida Calógeras é um dos endereços mais importantes do centro de Campo Grande. Ela se destaca pelo seu comércio e tornou-se via de desenvolvimento econômico, principalmente por sediar a Estação Ferroviária, que em suas imediações imigrantes sírio-libaneses estabeleceram-se, instalando casas comerciais e, com grande visão de futuro, viram seus negócios prosperarem há mais de 30 anos.

A via tem início em uma rotatória urbana da qual nascem outras três avenidas: Eduardo Elias Zahran, Salgado Filho e Costa e Silva.

Sua nomenclatura é uma homenagem a João Pandiá Calógeras, engenheiro formado pela famosa “Escola de Minas”, de Ouro Preto (MG). Ele trouxe para Mato Grosso do Sul o Exército Nacional Brasileiro. Pandiá foi um importante político eleito, diversas vezes, pela Câmara Federal. Ele ainda criou o Código de Organização Judiciária e do

Processo Militar durante o período em que atuou como Ministro da Guerra, no governo de Epitácio Pessoas. Calógeras ainda foi homenageado com um busto de bronze esculpido pelo artista Rodolfo Bernadelli, na praça Ary Coelho.

Saída da antiga estação ferroviária era ‘point’ na época. Passageiros chegavam de vários cantos do país e movimentavam o local. Carroças e cavalos ficavam esperando para transportar essas pessoas (foto: Nilson Carvalho Vieira/Acervo Arca)

Saída da antiga estação ferroviária era ‘point’ na época. Passageiros chegavam de vários cantos do país e movimentavam o local. Carroças e cavalos ficavam esperando para transportar essas pessoas (foto: Nilson Carvalho Vieira/Acervo Arca)

O historiador Carlos Alberto da Silva, 44, conta que quando criança, frequentava muito a Avenida Calógeras pois seus padrinhos tinham um box no Mercadão Municipal, na década de 1980.

“Meu padrinho era descendente de libanês e tinha muito desses descendentes na Calógeras. Era maior o número de pessoas no local, tinha até estacionamento de carroças e cavalos, era um fluxo muito grande”, lembra.

Profissões que movimentavam avenida, hoje já não existem mais no local

Carlos Alberto conta que não só a calógeras, mas Campo Grande perdeu muito de sua tradição quando desativaram a ferrovia. Isso porque quando os trens paravam na antiga estação, pessoas de vários lugares do Brasil desembarcavam na cidade, e a Avenida Calógeras era o “point” delas.

Era muito comum encontrar selarias e ferreiros. Hoje esse tipo de comércio foi quase extinto no local, apenas um seleiro ainda resiste e mantém a tradição 9foto: Valentim Manieri)

Era muito comum encontrar selarias e ferreiros. Hoje esse tipo de comércio foi quase extinto no local, apenas um seleiro ainda resiste e mantém a tradição (foto: Valentim Manieri)

“Tinha o hotel Gaspar e o trem. Muitos chegavam de São Paulo e outras regiões para fazer compras no comércio de roupas e variados. Era muito bom, efervescente. Hoje infelizmente está fraco. O trem que saia para o pantanal era bem legal e várias pessoas do Brasil chegavam por ali, tinha muita gente. Infelizmente perdemos muito, ninguém tem mais o prazer de chegar pela ferrovia, passar pela ponte, e cortar o Pantanal”, comenta o historiador.

Com a chegada do progresso ao centro de Campo Grande, algumas profissões foram se extinguindo devido a falta de demanda. Ferreiros, sapateiros, artesões, entre outras profissões que eram muito comuns na época do trem, agora não se encontram mais no local.

 

Lojas da rua tinham forte influência da cultura sertaneja no século 20

Desde o início, Campo Grande, antes chamada de Campo Grande das Vacarias, tem uma forte influência sertaneja na cultura de seu povo. A Capital se desenvolveu no início do século 20, com a agropecuária, proporcionada pelo estabelecimento de fazendas de criação de gado em suas imediações e nos campos limpos de Vacaria.
Já no fim do século, com a linha do trem e o forte comércio no centro da Capital, comitivas de gado chegavam na Avenida Calógeras, o que movimentava as vendas de artigos de selaria.

Relógio localizado no cruzamento das avenidas Calógeras e Afonso Pena (Foto: Valentim Manieri)

Relógio localizado no cruzamento das avenidas Calógeras e Afonso Pena (Foto: Valentim Manieri)

Historiadores contam que antes, na avenida, era muito comum encontrar selarias e ferreiros. Hoje esse tipo de comércio foi quase extinto no local, apenas um seleiro ainda resiste, é o caso do senhor Valdemar Siqueira, 90. Ele culpa a crise econômica pela queda do movimento do comércio.
“Com a Calógeras acontece o seguinte, o comércio caiu um pouco e com a crise cai mais ainda, mas teve um tempo bom”, relembra o comerciante.
Com o estoque bastante variado, o seleiro afirma que mantêm a loja atualizada com as novidades do mercado e que muitos produtos continuam os mesmos dos usados há anos. “Não mudou nada, só o designe, os arreios e selas continuam os mesmos”.

Impostos e aluguéis tem feito com que comércio fique ‘inviável’ em avenida

Para o seleiro, a falta de movimento não é algo desmotivante, pois aos 90 anos, a selaria é como se fosse uma parte dele. “Sinto falta daquele tempo, era bem melhor, tinha mais gente, muito tropeiros, chegava época que tinha 21 comitivas que vinham para puxar gado, e eles paravam aqui. Tinha um hotel aqui. Estou velho já, e isso é tudo para mim, agora vou deixar para meus filhos”, relata.

Importante para o desenvolvimento da região Hotel Gaspar foi inaugurado em 1954 (Foto: Valentim Manieri)

Importante para o desenvolvimento da região Hotel Gaspar foi inaugurado em 1954 (Foto: Valentim Manieri)

Mesmo com esse passado glorioso, hoje a Calógeras está abandonada, segundo os comerciantes. “Aqui na Calógeras, hoje quase não é viável ter comércio, conheço muitos que já fecharam. Temos os impostos, alugueis e contas. As pessoas quase não vêm aqui, o movimento fica mais na rua 14 de Julho.”, relata Sebastião Valadão, 60, que é dono de lanchonete há 11 anos no mesmo local.

Sebastião ainda se diz preocupado com a transferência do Labcen (Laboratório Central Municipal), pois segundo o comerciante, diminuirá ainda mais o público que frequenta a rua. “Aqui todos os dias de manhã as pessoas acabam de fazer seus exames e vem comer um salgado e tomar um suco. Agora, com a saída do Laboratório Central, o movimento vai cair mais ainda”.

A transferência do Labcen para o prédio da Policlínica Odontológica da Vila Cruzeiro –região norte de Campo Grande– foi a solução que a prefeitura encontrou para a falta de estrutura do prédio, uma vez que a policlínica funciona em imóvel próprio, o que demanda pouco investimento para a transferência.

Falta de onde estacionar é um obstáculo para clientes

Atualmente, apenas um vagão resta da antiga ferrovia da Capital (Foto: Valentim Manieri)

Atualmente, apenas um vagão resta da antiga
ferrovia da Capital (Foto: Valentim Manieri)

Jaci Monteiro, 52, mulher do comerciante Sebastião Valadão, 60, explica que um dos principais problemas que atrapalham o comércio da rua, é a falta de vaga para estacionar. Segundo a comerciante, donos e funcionários de comércios estacionam seus carros pela manhã e só saem no final da tarde.

“Eles não deixam nenhuma vaga para clientes, os parquímetros aqui não funcionam, nem vejo gente fiscalizando. Sem falar da linha de ônibus que tira todas as vagas de um lado da rua”, relata.

A prefeitura informou que a fiscalização dos parquímetros cabe a empresa Flexpark e que em caso de irregularidade, a empresa aciona a Agetran (Agência Municipal de trânsito) para aplicar multa. “Os comerciantes devem ligar na empresa e encaminhar as demandas”, informou a assessoria da prefeitura.

Uma rua que guarda a história

Segundo o Arca (Arquivo Histórico de Campo Grande), a avenida Calógera era conhecida como Rua de Santo Antônio. Ao longo da sua extensão, a Calógeras revela edificações e locais que testemunharam importantes fases da evolução de Campo Grande. Como a Estação da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que foi o primeiro meio de transporte que uniu a cidade ao restante do país.

O prédio dos Correios e Telégrafos, localizado na esquina com a Rua Dom Aquino, também é um exemplo. Ele foi construído em 1.922 para residência de Arnaldo Estevão de Figueiredo. Foi uma das primeiras construções da Capital em estilo art-deco.

Já a Maçonaria, construída para sede da Loja Maçônica “Oriente Maracajú”, foi inaugurada em 24 de fevereiro de 1924, onde foi instalado a sede do Governo na Revolução Constitucionalista de 1932, quando a Associação dos Criadores do Sul de Mato Grosso ficou contra o poder do então presidente Getúlio Vargas, e rompeu com os governos Estadual e Federal.

Outro ponto importante é o relógio no canteiro da Afonso Pena. Este monumento foi considerado o marco da democracia. Originalmente, ele foi instalado em 1933, no cruzamento da Afonso pena com a rua 14 de Julho, representando o marco Zero do município.

Mais tarde, por motivo de desenvolvimento e logística, o relógio foi derrubado em 1970, e teve uma réplica instalada na Calógeras, em 1.999, para comemorar o centenário de emancipação campo-grandense.

Importante para o desenvolvimento da região Hotel Gaspar foi inaugurado em 1954

A paróquia de Santo Antônio também faz parte da história da região. Originalmente a igreja foi construída de madeira, em promessa feita pelo fundador José Antônio Pereira ao Santo Antônio em 1879.

Ao longo dos anos a igreja sofreu inúmeras alterações em sua estrutura e até na localização. A atual estrutura foi inaugurada em 1989. Em visita a Campo Grande, o papa João Paulo 2 consagrou a igreja como Catedral de Nossa Senhora da Abadia.

Importante no desenvolvimento da avenida, o Hotel Gaspar foi inaugurado em 26 de agosto de 1954, na esquina com a avenida Mato Grosso. O local preserva a história, mantendo a mesma fachada de quando foi inaugurado. Nele, equipamentos que antes eram muito uteis, hoje são expostos como forma de apresentar parte da história da empresa.  Pessoas ilustres, como o ex-governador de Mato Grosso Pedro Pedrossian, senadores e desembargadores já se hospedaram no Hotel. Segundo o Arca, “hospedar no Gaspar é viver um pouco do que foi Campo Grande na década de 50”.

No cruzamento com a Rua 15 de Novembro e antes de atingir o Cemitério de Santo Antônio, que foi o terceiro campo santo da cidade, a Avenida Calógeras abrigou a Escola Municipal Bernardo Baís, que substituiu uma escolinha denominada “Castro Alves”, de apenas uma sala de aula.

A Calógeras, mesmo que não seja mais o forte centro comercial de alguns anos, ainda abriga lojistas que tem esperança em uma melhora nas vendas. Pessoas que acreditam na volta de um passado glorioso, diferente da atual realidade, onde vendedores ficam na porta esperando por seus clientes, que não chegam.