Magno Abreu passou a se aventurar em outros estilos que não só o reggae (Foto: Valentin Manieri)

Magno Abreu passou a se aventurar em outros estilos que não só o reggae (Foto: Valentin Manieri)

O movimento não é novo nas terras guaranis. Bob Marley e outros músicos jamaicanos influenciaram com suas letras e canções artistas sul-mato-grossenses, como Antônio Porto e Simona, nos anos 80 e 90. Posteriormente, contribuíram para o surgimento de bandas como Canaroots e Louva Dub, no início dos anos 2000.

Mas, apesar de ser um dos principais gêneros musicais no mundo, o reggae ainda luta para sobreviver em Campo Grande. O ritmo jamaicano, que nasceu nos guetos do país caribenho na década de 1960 como uma maneira de contestação social, ainda busca conquistar o seu espaço na Capital sul-mato-grossense. Porém, a batalha aparenta estar longe do fim. Além da falta de espaços para apresentações, a cena enfrenta discriminação da sociedade e do poder público.

Segundo o produtor cultural Diego Manciba, integrantes do movimento padecem com a estigmatização do reggae. Ainda que tentem mobilizar ações em prol do gênero, muitas vezes acabam sendo penalizados por donos de bares da cidade em razão do preconceito, ou mesmo sendo reprimidos por agentes públicos. “Essa postura contra o reggae mantém a cena marginalizada. A cena é tratada com descaso pelas autoridades que não enxergam o verdadeiro potencial educacional e cultural contido nas mensagens passadas pela música”, afirma ele, que também está à frente do grupo Rockers Sound System.

Manciba estava à frente do Rockers Bar e lamenta a falta de incentivo (Foto: Acervo pessoal)

Manciba estava à frente do Rockers Bar e lamenta a falta de incentivo (Foto: Acervo pessoal)

É esta falta de reconhecimento e incentivo cultural que, para Manciba, faz com que o reggae caminhe a passos lentos em seu desenvolvimento em Campo Grande e no restante do Estado.

O produtor era responsável pelo Rockers Bar, estabelecimento dedicado exclusivamente ao ritmo jamaicano e que, após uma operação da polícia civil em 2015, teve os equipamentos de som apreendidos e acabou culminando com o encerramento das atividades na cidade. “Desde então estamos reconstruindo nosso sistema de som do zero”, lamenta Diego Manciba.

Uma chama que queimava no Rockers Bar, no coração da cidade

O antigo prédio onde se localizava o Rockers Bar, próximo da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), após quase dois anos de fechar suas portas, hoje é ocupado por uma igreja protestante. Ainda assim o estabelecimento é visto como um dos responsáveis pela consolidação do reggae e pelo crescimento de público e músicos que se dedicam a desenvolver o cenário na cidade.

Nos anos em que se manteve em atividade em Campo Grande, o bar despertou o interesse de muitas pessoas pelo ritmo e impulsionou o surgimento de novos nomes da música no Estado, como a cantora Marina Peralta. Marina é considerada hoje uma das principais artistas da música sul-mato-grossense e vem despertando o interesse do público fora do Estado, chegando a se apresentar em importantes festivais do Brasil e a gravar uma parceria na música “Só Agradece” com a banda paulistana Planta e Raiz, uma das referências do reggae no país.

Apesar de estar fechado atualmente, e de os responsáveis pela estrutura estarem se reconstruindo, o Rockers Bar marcou época entre o público na cena cultural e conseguiu fortalecer a presença do gênero jamaicano.

Se antes o número de artistas dedicados ao ritmo era pequeno, hoje em dia esta realidade está se tornando passado. O bar acabou colaborando para a formação de novos nomes. E, principalmente, criando um novo público e aglutinando-os em um único espaço. “Com o Rockers começou a surgir algo mais presente, um movimento mesmo. Antes era disperso, depois ele uniu todos”, afirma o músico Magno Abreu.

Os músicos João Leão (esquerda) e Gustavo Villarinho (direita) são integrantes da campo-grandense banda Raiz (Foto: Guilherme Pimentel)

A banda Raiz, formada por João Leão, vocalista, Gustavo Villarinho, baterista, e Rafael Minhoca, baixista, teve no antigo estabelecimento a oportunidade de começar a profissionalizar o grupo. “Conseguimos pegar o último ano de funcionamento do Rockers. Como o material de som de lá era muito bom, tivemos a chance de nos ouvir, sentir a vibe do público e descobrir onde ainda precisaríamos melhorar”, diz João.

O fechamento do local deixou muita gente com o sentimento de estar órfão de um espaço que tivesse a cara do movimento jamaicano. “A Cabana, um local que também abria as portas pro reggae mas que também já fechou, teve importância na história da banda. Hoje o Recycle acaba por abraçar um pouco o movimento, ao menos nas quintas, dia em que o grupo Rockers Sound System se apresenta, e já ajuda”, explica Gustavo.

Mesmo com pouco espaço para se apresentar, a banda Raiz continua e segue para seu quarto ano de existência. Atualmente já conta com 12 composições e o próximo passo da Raiz é gravar seu primeiro EP em estúdio. O grupo faz show no dia 7 de maio no festival Alianza Reggae Sunset, aqui na Capital.

Surfando em ondas da música popular para além do reggae

Se o Rockers fortaleceu a cena do reggae, o término de suas atividades também fez com que os artistas se transformassem. Após o encerramento das atividades, foi preciso ter um novo olhar para a amplitude da música e de seus gêneros. Como o músico paulista de Ilha Solteira, Magno Abreu, 37.

Compositor de samba, forró e enredos de escolas de samba, ele roda pelos bares do Estado desde 2001, quando chegou de sua terra natal para trabalhar em uma cidade do interior. E também se jogou no reggae.

Conheceu o ritmo ainda criança por influência do maior artista do gênero: Bob Marley. Apaixonado pelo ritmo jamaicano, se embrenhou a compor músicas autorais mas com elementos próprios sul-mato-grossenses, como temáticas que falam da luta indígena.

Mas, segundo ele, para viver aqui de músico, e sem espaços próprios, não é possível tocar apenas o reggae, e sim surfar em outros ritmos da música popular. “Tiveram de mudar e tocar outras coisas nos bares das cidades”, conclui.