Em primeiro plano, Enzo, tomando banho de luz UV; ao fundo, Gabriel. Os gêmeos vieram ao mundo em parto normal da mamãe Bruna Rocha

Em primeiro plano, Enzo, tomando banho de luz UV; ao fundo, Gabriel. Os gêmeos vieram ao mundo em parto normal da mamãe Bruna Rocha (Foto: Guilherme Pimentel)

Houve um período na história recente em que uma professora perguntava em sala de aula: “Quem aqui nasceu de parto normal?”. Raros eram os casos de alunos que erguiam a mão. Agora, se a pesquisa buscasse identificar os estudantes que nasceram de parto normal, quase em sua totalidade a classe acenaria que veio ao mundo por meio de uma intervenção cirúrgica. Tudo por conta da cultura das cirurgias cesarianas, que ganhou força a partir da década de 90 e fez surgir o tabu de que os partos normais poderiam trazer riscos à mamãe e ao bebê. Porém, este é um paradigma que está prestes a ser derrubado.

Dr. Márcio Rezende espera reduzir ainda mais índice de cesareanas (Foto: Guilherme Pimentel)

Dr. Márcio Rezende espera reduzir ainda mais índice de cesareanas (Foto: Guilherme Pimentel)

Dados divulgados este mês pelo Ministério da Saúde revelam que, pela primeira vez, desde 2010, houve redução no índice de cirurgias cesarianas realizadas no país. Das 3 milhões de crianças que nasceram em 2015, 55,5% delas vieram ao mundo por meio de intervenções médicas. Considerando apenas partos no SUS (Sistema Único de Saúde), a situação se inverte e o índice de partos normais é maior: 59,8%.

O ministério anunciou novas diretrizes de assistência ao parto normal e essas medidas visam o respeito no acolhimento e mais informações para o empoderamento da mulher no processo de decisão ao qual tem o direito. Assim, o parto deixa ser tratado como um conjunto de técnicas, e sim como um momento fundamental entre mãe e filho. Em Mato Grosso do Sul, se tem um hospital que se enquadrou bem nessa nova metodologia de assistência às gestantes, trata-se da Santa Casa.

1304_parto_normal4

Maria conta que atenção recebida no parto de Laís foi surpreendente (Foto: Guilherme Pimentel)

Em 2012, a taxa de cesarianas no hospital era de 61%, no ano passado ela caiu para 41%. Ou seja: a maioria das crianças que nasce no hospital veio ao mundo de modo natural. O médico Márcio Rezende, coordenador do setor de obstetrícia do hospital, garante que, em um futuro próximo, quando uma professora perguntar quem nasceu de parto normal, maioria da turma erguerá os braços.

“É um paradigma que está sendo quebrado. Os partos normais estão aumentando porque, tanto a mulher, quanto a equipe médica, estão se encorajando para encarar esse procedimento. Na Santa Casa temos o cuidado de humanizar a assistência à gestante, desde quando ela passa pelo porteiro até ser atendida pelas enfermeiras e médicos”, explica Rezende.

image descriptionHá algumas semanas, nasceu no hospital de maneira natural a pequena Laís Vitória, filha de Maria. A dona de casa, que também teve seus outros cinco filhos por meio de parto normal, diz que a realidade atual é diferente da de 11 anos atrás, quando teve seu primeiro bebê. “Antes era tudo mais tumultuado. Hoje o ambiente é mais tranquilo e recebi atenção bem maior no hospital”, explica Maria.

Se a Santa Casa já vinha apresentando redução nos índices de cesarianas, a tendência é que agora eles venham a cair ainda mais. “Implantamos um protocolo que precisa ser seguido e o médico não faz mais o que ele quer. Nosso Centro Obstétrico é totalmente voltado à humanização e o protocolo estabelece que a gestante terá acompanhamento durante todo o seu trabalho de parto. Em um ano, queremos reduzir a taxa de cesarianas para 30%, como preconiza o Ministério da Saúde”, explica o coordenador Márcio Rezende. O índice atual de cesarianas realizadas no hospital é de 41%.


Apesar de quedas, ainda falta acesso à informação

Doulas voluntárias atendem gestantes no HU. Mesmo assim, acesso a informações sobre o parto normal é escasso na Capital (Foto: Arquivo pessoal)

Doulas voluntárias atendem gestantes no HU. Mesmo assim, acesso a informações sobre o parto normal é escasso na Capital (Foto: Arquivo pessoal)

Mesmo com os índices revelando o aumento de partos normais no Brasil, quem trabalha na área comprova que a falta de informações durante o pré-natal ainda é uma realidade. O caso de Bruna, que teve os gêmeos Enzo e Gabriel sem se preparar para o parto normal está longe de ser um fato isolado.

Para a doula Maria Maia, que atua oferecendo assistência a mulheres desde os meses iniciais da gestação até o momento do nascimento, “ainda existe a cultura das cesáreas. A mulher tem o direito de optar também por uma intervenção cirúrgica, mas o adequado é que elas tenham acesso a informações sobre o parto normal e os benefícios dele durante o pré-natal”, explica.

Bruna lamenta ter perdido a oportunidade de se preparar melhor para ter seus gêmeos de maneira normal, praticando exercícios e alongamentos que dão mais tranquilidade à gestante no momento do parto. “Caso tivesse essas informações na unidade em que fiz o pré-natal, com certeza não teria o receio que tive no meu parto”, declara Bruna.

Por se tratar de um tabu que ganhou força nas últimas três décadas, penetrou-se na sociedade a ideia de que a cirurgia cesariana é o melhor método para se ter um bebê. Tal cultura ainda mostra seus reflexos nos dias atuais e, mesmo com esforços que buscam estimular a mulher a optar pelo parto normal, vale lembrar que a vontade da mãe é soberana. Tanto que existe a Resolução Nº 2.144/2016 do Conselho Federal de Medicina, que assegura à gestante o direito de, nas situações eletivas, optar pela realização de cesariana pelo SUS. Ela é aplicada a mulheres que estão em condições de terem parto normal, mas têm algum receio do método.

Sobre a atuação das doulas, que auxiliam no encorajamento da mulher que vai ter um filho através de parto normal, Maria lamenta pelas mães que não vão ter acesso a esse auxílio. “Há doulas que atuam oferecendo serviços particulares. No Hospital Universitário temos um grupo de voluntárias que ajudam as gestantes. Mas eu sou só uma, e são poucas que se dispõem a prestar esse serviço. O trabalho mais pontual de informar as gestantes ainda não existe”, lamenta Maria.

O HU de Campo Grande também apresentou redução no índice de cesarianas entre 2015 e 2016 –55% para 51%. O Hospital Regional, segundo fontes ouvidas pela equipe de reportagem, apresenta o maior índice de cirurgias cesarianas da Capital: 60%. O hospital foi insistentemente acionado para divulgar os índices de partos normais e cesáreas realizadas no local, mas, infelizmente, os dados não foram divulgados. (CHW)


Desmitificando o tabu da dor no parto normal

Após ter o pequeno Léo, Bruna viu que o fantasma da dor não era tão assustador. (Foto: Arquivo Pessoal)

Após ter o pequeno Léo, Bruna viu que o fantasma da dor não era tão assustador. (Foto: Arquivo Pessoal)

A epidemia das cesarianas a partir da década de 90 também amedrontou a bacharel em direito Bruna Gunther, que confessa ter criado um ‘fantasma’ sobre o parto normal. “Eu sempre morri de medo de parto normal, pois todos falavam que a dor é horrível e, se tiver complicação, o bebê e a mãe podem ser prejudicados. Então eu criei um fantasma sobre o parto normal”.

Quando começou a sentir as contrações, Bruna soube que poderia ter o filho Léo de parto normal. “(O trabalho de parto) teve de acontecer de forma espontânea para que eu visse que não era tão ruim quanto eu imaginava. Ele não é o tabu que todo mundo fala. É uma dor suportável, pois você sabe que vai passar. E quando passa, no meu caso, eu já queria levantar e dar banho no meu filho”, lembra ela.

A operadora de caixa Bruna dos Santos Rocha, mãe de primeira viagem, realizou todo o pré-natal dos gêmeos Enzo e Gabriel focada em tê-los por meio de uma cirurgia cesariana. “Quando cheguei ao hospital, falaram que a dilatação estava adequada para um parto normal. Na ‘hora H’, tive muito medo, pois não estava preparada para isso, mas sim para uma cirurgia. Tinha medo da dor, mas vi que ela era suportável e fui deixando me levar”, lembra Bruna.

Enzo e Gabriel deixaram o ventre de Bruna em um intervalo de 15 minutos um do outro. Ela não tem dúvidas de que, se tivesse recebido informações do parto normal no pré-natal, teria muito mais tranquilidade. “A recuperação é ótima. Se eu tivesse me preparado para o parto normal, não teria me assustado. Se porventura engravidar de novo, não terei dúvidas e vou optar pelo parto normal desde o início”. (CHW)