Aos 57 anos, Cleuza Neris trocou as salas de aula pelo ateliê de artesanato em que fabrica bonecas de pano, apelidado carinhosamente de “Cantinho das bonecas de pano”. (Foto: Valentin Manieri)

Aos 57 anos, Cleuza Neris trocou as salas de aula pelo ateliê de artesanato em que fabrica bonecas de pano, apelidado carinhosamente de “Cantinho das bonecas de pano”. (Foto: Valentin Manieri)

Você está satisfeito com a sua vida profissional? Seu trabalho atual é o que você realmente sempre almejou? Você acredita que daqui A dez anos você estará ainda feliz e com o mesmo pique do início? Não! Então, calma e foco, pois você não está sozinho nessa. Atualmente diversas pessoas estão repensando sua carreira profissional e tomando outro destino. Estão entendendo que para conquistar a tão sonhada realização profissional é necessário também estar feliz e satisfeito com a sua ocupação. E que, para a guinada na vida, é preciso apenas persistência e coragem com a escolha. Afinal, o tempo não para, mas há diferentes maneiras de lidarmos com essa situação indesejada. E para isso basta apenas perseverança.

A confeiteira Fernanda Castelão, 32, é um exemplo disso. Há três anos ela abandonou os ternos alinhados pelo dólmã –túnica que os chefs de cozinha utilizam como uniforme. Há três anos ela largou oficialmente os escritórios abarrotados de processos para se dedicar exclusivamente à cozinha. Mais especificamente à confeitaria de bolos e doces.

Ela se mostrava talentosa para a área desde a infância. Na ânsia de buscar uma formação universitária escolheu o direito. Mas não abandonou a habilidade na cozinha. Durante a graduação fazia alguns doces para vender na universidade e no estágio e, assim, aumentar a renda. Ela se formou e mesmo assim não abandonou a aptidão na culinária que via apenas como hobby. Em festas de amigos e familiares sempre se prestava a fazer os quitutes. Foi assim, mesmo que sem querer, que começou a receber as primeiras encomendas e perceber que esse “passatempo” poderia lhe trazer um prazer profissional.

Ela teve de refletir muito no início a respeito para tomar a decisão final de abandonar a advocacia a fim de se dedicar apenas à doceria. Não foi fácil o processo. Aos poucos foi se desgarrando do direito e buscando conciliar com a nova escolha. “Quando vi que dava para abandonar, abandonei de vez”, disse Fernanda Castelão.

No início improvisou uma cozinha na casa de sua mãe. As encomendas foram aumentando. Mas era preciso mais se quisesse realmente se tornar uma confeiteira. Procurou cursos e oficinas na área de confeitaria e começou a se dedicar aos estudos na área.

Em apenas três anos, sua atuação se expandiu. Sua atuação no mercado aumentou. Em 2016 começou também a ministrar cursos, a dar consultorias e criar receitas exclusivas para cafeterias e padarias. “Hoje, posso dizer que unir o que eu amo com o empreendedorismo me deixou realizada”, diz Fernanda. E complementa: “Me sinto profissionalmente satisfeita”.

Não há hora, nem tempo certo, para buscar se dedicar à carreira que se ama

A professora de história Cleusa Neris Ferreira, 57, dedicou sua vida inteira aos filhos e, logo depois, à docência. Lecionava na rede pública e, muitas vezes, sua vida era dedicada exclusivamente à escola. Após fazer alguns cursos de artesanato, Cleusa começou a gostar da área. Fazia para as filhas e tinha o processo como hobby. Não acreditava que, em algum momento, levaria como profissão.

Começou a se dedicar a cursos de costura e chegou a firmar parceria com uma amiga. A sociedade acabou e, mesmo assim, ela continuou na atividade. Abriu sua loja o “Ateliê Cleusa – Cantinho das bonecas de pano” e se dedica unicamente ao artesanato. Faz o seu horário e tem espaço em sua agenda para acompanhar seus familiares. “Hoje tenho sábado, domingo, posso ver meus netos e posso sair. Eu tenho qualidade de vida”, disse.

Os primeiros passos são os mais difíceis, depois o processo se torna parte da rotina

É importante ressaltar que nenhuma das duas começou a traçar uma nova carreira apenas com o desejo de mudar. Elas viram, em atividades que consideravam apenas um hobby, a oportunidade de conquistar a qualidade de vida e de seguir uma carreira profissional. Mas o desejo não bastou. Foi preciso se dedicar aos estudos para conhecer as potencialidades da área e vencer os obstáculos iniciais.

As barreiras não eram apenas o receio de construir um novo destino; eram postas por pessoas próximas também. Em uma certa ocasião, quando estava determinada a mudar de carreira, a confeiteira Fernanda Castelão chegou a ouvir questionamentos como: “Por que vai trocar essa profissão tão linda que é o direito para fazer doces?”. Elas venceram o medo e tiveram perseverança nesse desafio, mas desde o início sabiam que não seria nada fácil.