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Pelas pistas de caminhada e espaços de lazer, o parque revela um dos mais belos visuais de Campo Grande (Foto: Saul Schramm)

“Foi assim que tudo começou. O doutor Pedro [Pedrossian, ex- governador] queria dar novos ares a Campo Grande e criar um projeto que beneficiasse toda população. O que mais me marcou, na época, foi uma frase dele. Ele disse assim: ‘vou criar uma obra que, quanto mais velha ficar, mais moderna será’”, lembra o ex- presidente da Câmara Municipal de Campo Grande, Chico Maia, sobre a Criação do Parque das Nações Indígenas, em 1993.

Localizado no perímetro urbano, num fundo de vale na área leste da Capital, o Parque tem 116 hectares e está a poucos minutos do centro da cidade. Considerado um dos maiores parques urbanos do mundo, o local foi criado por meio do Decreto nº 7.354/93, e destinado a promoção de atividades recreativas, esportivas, educativas e culturais. A criação do parque surgiu através de um projeto, que o ex-prefeito da Capital Lúdio Coelho, havia planejado para a área.

“Eu era presidente da Câmara. Em uma conversa, o doutor Pedro me perguntou se o Lúdio tinha algum projeto para construir um parque na cidade. Eu respondi que sim, mas que a ideia era fazer um pequeno parque próximo ao shopping. No local seriam construídos edifícios, mas com a condição de que quando isso ocorresse o responsável teria que deixar 50 metros de fundo para o lazer” conta.

Chico recorda que, às 5h do dia seguinte recebeu uma ligação do ex-governador. “Ele disse assim. ‘Bom dia Chico Maia, o que está fazendo?’. Eu respondi que estava tomando mate. Então ele perguntou se eu podia ir ao seu encontro. Chegando ao local, onde hoje fica o Yotedy Buffet, ele apontou para a região e começou a falar sobre seu projeto. O local era cheio de chácaras. Ele me perguntou: ‘O que você está vendo aqui?’. Respondi que via a avenida Afonso Pena. Aí ele falou: ‘pois é, eu estou vendo aqui o maior parque urbano da América do Sul. Vou fazer aqui a obra mais importante da minha vida. Uma obra que quanto mais velha mais ficar moderna será. Vou desapropriar essa região e farei o maior parque urbano da América do Sul’”, lembra Maia.

Dez dias depois as máquinas já estavam em operação para dar vida a um parque que se configura em um dos principais diferenciais de Campo Grande.

O mais importante do projeto era o lago, recorda o engenheiro Katayama

O projeto teve duas fases: a do primeiro mandato do ex-governador Pedro Pedrossian, com os passos iniciais, e a segunda etapa, no último mandato, quando a obra foi concluída, entre os anos de 1991 a 1994. O ex-secretário estadual de Obras e Infraestrutura, engenheiro Renato Katayama – que participou do processo, no segundo mandato de Pedrossian – conta que o principal objetivo da construção do Parque das Nações Indígenas era o lago.
“Pedrossian estava decidido a construir o Parque, mas havia muitas chácaras no local. Eu fiquei curioso e perguntei, ‘mas o que o senhor quer fazer?’.

Ele me respondeu: ‘nós vamos desapropriar tudo’. Levei um susto, porque eram muitas hectares. Uma coisa era desapropriar um pequeno espaço, outra, bem diferente, era fazer isso com 116 hectares. Eu perguntei se ele tinha certeza e, como resposta, ele me pediu a planta do projeto”. Olhando firmemente para o ex-secretário, Pedrossian determinou: “Façam o esboço. Quero três opções”.

Acatando a solicitação do, então, governador, Katayama e sua equipe puseram mãos a obra. “Nós desenhamos as opções e em seguida as apresentamos. Ele escolheu o projeto que hoje conhecemos. Depois, contrataram a empresa A3 Arquitetura, que deu forma ao esboço. Pouco antes do final do segundo mandato a obra foi finalizada”, diz Katayama.

Em relação a desapropriação, o ex-secretário relata que ninguém precisou deixar o local de última hora. “As famílias foram indenizadas. Teve muita gente que não aceitou a desapropriação e entrou na Justiça, mas acabaram recebendo. Eram umas dez chácaras. Como a obra demorou para ser concretizada, ninguém precisou sair as pressas”, lembra.

Para Katayama, o aspecto mais importante do projeto era o lago. “Foi importante devido ao seu impacto sobre o clima”, afirma. Cerca de 70% de sua vegetação é formada por gramas e árvores ornamentais originárias do seu projeto de paisagismo. Uma grande quantidade de espécies de árvores são preservadas, como por exemplo o jenipapo, a mangueira e a aroeira.

A vegetação exuberante serviu também para esconder as caixinhas do projeto elétrico que, diferente do que pretendia Pedrossian, acabaram ficando à vista. O engenheiro elétrico Antônio Bosco, responsável pelo projeto elétrico do Parque das Nações Indígenas, lembra dos cuidados que foram necessários durante a obra. “Íamos iluminar o parque todo, uma área grande, então colocamos 242 postes de luz de 19 metros de altura. Não podia ter fiação à vista. No entanto, não tivemos tempo de fazer assim, porque já estava encerrando o mandato e chovia muito. Fizemos as caixinhas improvisadas, de alvenaria, e estão lá até hoje”. Segundo Bosco, um projeto de paisagismo escondeu as caixinhas, mas o ex-governador reclamou do perigo de ter a parte elétrica à vista.

“Quero deixar meu alerta. Aquilo é um perigo, precisa ser isolado. A alta tensão chega ali, converte para baixa tensão para alimentar o parque. A caixa mãe distribui para as outras caixinhas, que estão espalhados por todo o parque. Elas estão no chão, super enterradas, você só vê uma tampa verde. As pessoas sentam naquelas caixinha, mas é muito perigoso”, ressalta o engenheiro, lembrando que, desde a fundação do parque, nenhuma administração se preocupou com a questão.


Espaço de lazer para todos os campo-grandenses

As próprias características da região onde se localiza o Parque das Nações Indígenas davam indicativos de sua necessidade para o lazer. Áreas vizinhas foram sendo ocupadas, dando lugar a empreendimentos e obras como o Parque dos Poderes, Shopping Campo Grande, Pavilhão de Exposições Albano Franco, e loteamentos residenciais. O entorno do parque foi sendo tomado para a execução de atividades de lazer da população que, com seu comportamento, consolidou a vocação do local.

Hoje, é um dos locais mais visitados pela população da Capital e por turistas que visitam o Estado – são cerca 2 mil visitantes por dia, com picos de até 8 mil pessoas em feriados e finais de semana. É considerado “refúgio” dos campo-grandenses e um espaço de contemplação da natureza, em pleno ambiente urbano.

No local são realizadas uma série de atividades culturais, desportivas e de lazer pelos parceiros e demais instituições instaladas no local. Dentro da área do parque funcionam a sede da Fundação de Turismo, o Museu das Culturas Dom Bosco, o Marco (Museu de Arte Contemporânea), a Concha Acústica Helena Meirelles e um destacamento da Polícia Militar. A mais nova atração do local será o Aquário do Pantanal, cuja obra ainda está em fase de conclusão.

Apresentações com músicos sul-mato-grossenses são promovidas regularmente na Concha Acústica, assim como atividades lúdicas e oficinas culturais. Importantes competições esportivas são sediadas dentro das dependências e no entorno do parque, como o Circuito de Vôlei de Praia, o Torneio de Canoagem e a Volta das Nações.

A prática desportiva e recreativa é outro atrativo do local. A pista de caminhada tem 4,3 km de extensão e em seu percurso os visitantes encontram à disposição duas quadras poliesportivas, pista de skate, equipamentos de ginástica e três parques com brinquedos infantis – um deles, inclusive, com equipamentos adaptados para crianças com deficiência (o primeiro do Estado).

O engenheiro agrônomo Adriano Godoy, 29, é frequentador assíduo do parque. “Minha casa é aqui perto. Venho, de vez em quando, para fazer caminhada, tomar uma água de coco, assistir shows na Concha e agora quero começar a pedalar aqui para aproveitar a pista de ciclismo. Gosto daqui por conta da natureza, do lago. É um ambiente legal”. A estudante Franciele Spengler, 22, também frequenta o parque. “O espaço me atrai. É tranquilo para sentar e tomar tereré com os amigos, tocar violão, relaxar. É um lugar bom”.

Cada uma das seis entradas (ou portais) do parque leva o nome de uma etnia indígena de Mato Grosso do Sul. Além disso, duas obras de arte homenageiam os povos indígenas. O Guerreiro Guaicuru, um dos pontos mais visitados do parque, e os bustos de Marçal de Souza e Marta Guarani. (AR)