Fotos: André Bittar

Fotos: André Bittar

Além dos problemas encontrados no lixão e aterro de entulho de Campo Grande, conforme O Estado Online publicou ontem, a UTR (Usina de Triagem de Resíduos) localizada no bairro Dom Antônio Barbosa – região sul da cidade – também tem problemas. Catadores de recicláveis, que trabalham no local unidos em cooperativas correm riscos, embora o local seja mais estruturado que o depósito de lixo a céu aberto.  Apesar dos avisos afixados pela Solurb para que os trabalhadores usem EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), no local, a equipe do jornal O Estado encontrou catadores sem luvas. Os profissionais, que não quiseram se identificar, relataram à reportagem na semana passada que alguns insistem em não vestir a proteção para as mãos.

Um trabalhador entrevistado contou que já furou a mão com uma agulha que foi encontrada em meio ao material coletado em domicílios de 120 bairros da cidade. “O povo também não ajuda, no caminhão da coleta seletiva vem até gato morto, fralda e eu furei minha mãe com uma agulha de seringa”.

Material para separação está acumulado e quando chove, não dá pra trabalhar

catA reportagem voltou à usina e mais uma vez encontrou pessoas sem luvas. Catadores que quiseram conversar com a reportagem afirmaram que ainda faltam melhorias a serem feitas no local e que em dia de chuva, não conseguem trabalhar porque o galpão não tem proteção lateral e todos se molham.

Ontem, a montanha de lixo acumulado na usina para ser separado passava da altura do muro do local. Segundo trabalhadores, a situação aconteceu porque, no fim do ano, os trabalhadores tiveram um recesso, mas a coleta seletiva continuou acontecendo.

No ano passado, o MPT (Ministério Público do Trabalho) já havia notificado a Prefeitura de Campo Grande e a Solurb, empresa que administra a coleta de lixo da cidade, sobre a necessidade do fornecimento de EPIs de forma gratuita para os catadores da UTR, além de orientar os trabalhadores sobre uso adequado de equipamentos e fornecer assentos que garantam conforto para os catadores durante o exercício da função.

Cooperados temem que fechamento do lixão diminua o lucro na usina

Além dos problemas estruturais, outra preocupação dos trabalhadores é como a CG Solurb vai realocar os catadores que tiram o sustento do aterro sanitário, previsto para ser fechado no dia 28 de fevereiro. “Eu não sei o que vão fazer. Nem terminaram o que tem que ser feito para nós e não dá tempo de fazer tudo até fevereiro quando fecharem. Não tem esteira para todo mundo e a quantidade de gente vai aumentar”, disse um dos entrevistados, que mais uma vez pediu para ter a identidade preservada.

Conforme a coordenação da UTR, os catadores ganham de R$ 1,8 mil a R$ 2,4 mil por mês, porém os entrevistados não confirmam o valor, dizendo que recebem no máximo R$ 1 mil, dependendo do ritmo de produção.

Atualmente, há 88 trabalhadores de três cooperativas e uma associação que atuam na usina de triagem, que tem capacidade para 138 trabalhadores em cada turno – 414 cooperados no total. Conforme a Solurb, o local recebe em torno de 12 toneladas de resíduos por dia, das quais 40% viram rejeito (vidro, revistas, jornais, cartelas de ovos, isopor, copos descartáveis).

No local, a empresa está sendo construído mais um barracão para armazenamento de materiais, que está previsto para ser terminado no fim de fevereiro. A Solurb informou, ainda, que não serão instaladas mais esteiras.

Solurb alega que recicladores irregulares são advertidos

Sobre as denúncias publicadas na edição de hoje do jornal O Estado a respeito dos riscos que catadores correm durante o trabalho no lixão de Campo Grande, a Solurb informou que trabalhadores são orientados a usar equipamentos de proteção, além da distância segura – ao menos cinco metros – que têm de manter dos caminhões que descarregam lixo. Os que desrespeitam as normas, se flagrados, são advertidos.

“Em caso de reincidência, é suspensa a entrada [do trabalhador] no local por um determinado tempo”. Caso o mesmo persista no erro, “ele pode ser impedido de entrar definitivamente”, informou a empresa que administra os aterros e a coleta de lixo na Capital, além de compartilhar com a prefeitura da Capital a responsabilidade sobre a segurança dos catadores.
A administração municipal não se posicionou sobre o assunto.